Até que um dia, ao acordar, descobri que não tinha como fugir a este rio de Letras que corre para mim.
Onde está o branco em Ti?
09 Setembro 2008
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Rita
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26 Agosto 2008
Plastic stars (in our private galaxy).
Já o vejo ao portão de casa, à minha espera. Mal eu paro, ele apressa-se em fugir para dentro do carro. Faz o mesmo sorriso de sempre, dá-me um beijo na bochecha e começa a desbobinar as mil novidades que tem sempre por contar.
Fico a ouvi-lo falar da miúda a quem se deixou prender e deixo-me enternecer pela forma como me diz, com o mesmo sorriso da chegada: sabes, acho que finalmente, desta vez, acertei.
Já nem sei se acredito no amor dos homens (ou não consiste tudo, apenas, num interesse carnal, num aconchego de almas?), mas deixo-me iludir, porque, afinal, é essa ilusão que me faz acalentar o espírito.
Olho-o com atenção e vejo-o, agora, maior que eu. O meu amigo de infância tornou-se, quase sem eu dar conta, numa personagem de filme. Tem o dom da oratória, mas ignora-o e enrola mais um cigarro.
Vamos a um bar qualquer e ele bebe do meu copo. Fala aos outros de assuntos que eu já o ouvi falar há uma semana atrás, mas acrescenta sempre algum pormenor esquecido, o que lhe torna o discurso meio aliciante. Traz uma indiferença para com o mundo exterior pregada à pele e, ao mesmo tempo, uma simpatia insólita para quem se aproxima do nosso.
Não tocamos, juntos, em livros desde que encerrámos a época de exames; a poesia de Pessoa fá-lo deprimir, a ponto de lhe causar pensamentos pouco sãos.
Fixo-o e não consigo perceber há quantas noites não dorme o suficiente ou se passou o dia inteiro deitado. Parece que, às vezes, vive num estado de embriaguez que dá vontade de nos embriagarmos, nós próprios, nele.Já nem sei se acredito no amor dos homens (ou não consiste tudo, apenas, num interesse carnal, num aconchego de almas?), mas deixo-me iludir, porque, afinal, é essa ilusão que me faz acalentar o espírito.
Olho-o com atenção e vejo-o, agora, maior que eu. O meu amigo de infância tornou-se, quase sem eu dar conta, numa personagem de filme. Tem o dom da oratória, mas ignora-o e enrola mais um cigarro.
Vamos a um bar qualquer e ele bebe do meu copo. Fala aos outros de assuntos que eu já o ouvi falar há uma semana atrás, mas acrescenta sempre algum pormenor esquecido, o que lhe torna o discurso meio aliciante. Traz uma indiferença para com o mundo exterior pregada à pele e, ao mesmo tempo, uma simpatia insólita para quem se aproxima do nosso.
Não tocamos, juntos, em livros desde que encerrámos a época de exames; a poesia de Pessoa fá-lo deprimir, a ponto de lhe causar pensamentos pouco sãos.
As minhas noites são sempre mais protegidas quando o tenho ao meu lado, porque se me der para fugir, sei que ele não fica preso ao chão, a ver-me afastar. E porque temos sempre uma praia, juntos. Se não a tivermos logo ali, encontramo-la sempre, nem que seja só de manhã.
E, entre um ajeitar do cachecol que ele traz sempre ao pescoço e os acordes duma música qualquer, acabamos deitados na areia, a falar de coisas sem nexo. E eu não preciso de mais nada, um céu estrelado e um amigo bastam-me. Nem fotografias temos - o meu olhar fotográfico vale muito mais; não desfigura nem banaliza os ambientes.
Mas isto é só até, algures na madrugada, ele me dizer a rir: hey, vamos ao castelo!
Desaparecemos de mãos dadas e quando nos voltam a encontrar, costumamos estar perdidos, a afogar numa garrafa qualquer, o nosso cansaço da busca e a nossa tristeza de só termos encontrado um castelo de saudade.
(Tudo o resto é uma questão de dramatismo; na realidade, ninguém me sabe roubar o sorriso.)
por
Rita
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16 Agosto 2008
Home is where the heart is.
Olho o Rossio inteiro, com um arrepio a correr-me dentro das costas da camisola. É Verão, mas hoje o dia resolveu nascer menos brilhante.O meu coração veio a flutuar desde lá de baixo, quando me deixei ancorar nesta margem do rio. Atravessou o Cais, deu uma volta pelo Chiado, para, finalmente, aterrar aqui.
Fico meia paralisada e o frenesim habitual, como que em solidariedade, até me parece acalmar. Consome-me já uma saudade melancólica da imagem que existe à minha volta, como a falta que se sente de alguém que se sabe que se vai perder, mesmo ainda não o tendo, de facto, perdido e ainda o tendo nos braços.
Acordo deste sentimentalismo solitário com a mão dela a apertar a minha. Já quase a esquecia ao meu lado, não fosse um calor protector e invisível - aos olhos - ter-me sempre aconchegado, desde o início da caminhada.
Olho para o lado e vejo-a com o cabelo cor-de-cenoura e os olhos muito verdes e brilhantes dos quinze anos, quando fugiu do remoto vale da infância para experimentar as ruelas de Alfama. É, de repente, a menina risonha desses tempos, com mais mil sardas que eu a saltarem-lhe no rosto. Ri como se nada de demasiado grave houvesse no mundo e nunca, ainda, lhe tivessem feito mal, nem receasse poderem vir a calar-lhe esse riso.
Eu fico emocionada a olhá-la e não consigo evitar rir-me também. E somos, então, duas miúdas a pairar no meio da praça, que riem alheias aos olhares e aos cochichos.
Quando a abraço, as minhas lágrimas são um amor gigante a cair-me dos olhos. E é assim que deixamos acalmar o riso, para descansarmos no ombro uma da outra.
Não sei quanto tempo passou, nem se foi sonho ou realidade, mas quando desfazemos esse abraço, eu olho-a e só vejo um rosto enrugado. Mas, ao concentrar-me melhor, constato que a miúda de quinze anos continua a morar-lhe no fundo dos olhos.
Na outra ponta da península, sorri-nos o último prolongamento deste amor e eu sei que, aqui, a distância nunca será nada para o que une as almas.
Olho o Rossio inteiro, agora com um sorriso mais descontraído, porque, lembro-me, a minha casa não é chão. E recomeço a caminhar, não sei bem para que direcção, levando uma das minhas duas moradas ao meu lado, segurando a minha mão, e a outra no regaço, bem junto ao coração.
por
Rita
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20 Julho 2008
« Todos os dias te espero. Todos os dias me faltas. »
Dou-me hoje conta da velocidade dos tempos e da escuridão do meu peito - faz hoje muito tempo que não o olhava de frente.
Agora, ao destapá-lo, revejo-te em primeiro plano. Estás igual ao dia em que te abracei pela última vez, porque as despedidas são sempre permanentemente jovens em nós. Tomam, eternamente, a forma de rostos que se recusam a envelhecer.
Lembro, agora, o teu cheiro e o teu sabor, depois de tanto tempo de recusa. Acreditei seres o único homem com perfume debaixo da pele. Dei por mim a parar, várias vezes, no meio da calçada, de olhos fechados, a cheirar o ar, porque me parecia sentir esse teu cheiro a vir no vento.
Já o meu coração cheira a mofo e está desbotado. Só hoje o vejo. Falou-me um homem de voz segura, mas doce. Estava na colher de chá que bateu na chávena e no próprio chá que não bebi; foi só uma forma de se mostrar, porque no fundo ele vive em todos os cantos. As palavras dele fizeram-me tremer e desfazer em lágrimas. Há quanto tempo me tinha eu deixado congelar, nesta impossibilidade de te ter?
A apatia, branca e gélida, acalmou-me, tempo demais, a dor de já não te sentir na outra ponta da cama. Mas até ela desapareceu, mal o homem abriu a boca.
Despiu-me, assim, ele. Arrancou-me a capa da falsa dureza que me cobria e falou-me do que não deixei morrer. Quando ele se calou e eu olhei para dentro, vi o mesmo rosto intacto, agora descoberto, da tua juventude.
Viveste em mim, todos os dias em que o neguei. E esta recente noção dói tanto como o teu cheiro a surgir no meio da cidade, sem o teu corpo por perto.
Estou a rever, às claras, as imagens do nosso breve romance. Foi o homem que as trouxe para os meus olhos, quando eu já as pensava abandonadas. Não cessam um segundo, como se depois de tanto tempo a ignorá-las, me quisessem dizer que não se consegue nunca matar o que temos plantado no mais profundo de nós.
Não adianta tentares fugir para longe do que sempre esteve dentro de ti.
E, agora, ao pronunciar novamente o teu nome em voz alta, ao deixar-me desabar na sinceridade do escuro que a tua ausência me traz... morro mais um pouco, porque só assim sinto para viver de verdade.
As lágrimas são só um caminho inevitável nesta saudade em que me encontro, de novo, a remexer e que me levam a perceber que o orgulho é nada para o meu desejo de te reencontrar.
Naquela tarde de Verão, ao chegares, escancaraste as portas do meu desejo, abriste janelas e telhados...
Agora, ao destapá-lo, revejo-te em primeiro plano. Estás igual ao dia em que te abracei pela última vez, porque as despedidas são sempre permanentemente jovens em nós. Tomam, eternamente, a forma de rostos que se recusam a envelhecer.
Lembro, agora, o teu cheiro e o teu sabor, depois de tanto tempo de recusa. Acreditei seres o único homem com perfume debaixo da pele. Dei por mim a parar, várias vezes, no meio da calçada, de olhos fechados, a cheirar o ar, porque me parecia sentir esse teu cheiro a vir no vento.
Já o meu coração cheira a mofo e está desbotado. Só hoje o vejo. Falou-me um homem de voz segura, mas doce. Estava na colher de chá que bateu na chávena e no próprio chá que não bebi; foi só uma forma de se mostrar, porque no fundo ele vive em todos os cantos. As palavras dele fizeram-me tremer e desfazer em lágrimas. Há quanto tempo me tinha eu deixado congelar, nesta impossibilidade de te ter?
A apatia, branca e gélida, acalmou-me, tempo demais, a dor de já não te sentir na outra ponta da cama. Mas até ela desapareceu, mal o homem abriu a boca.
Despiu-me, assim, ele. Arrancou-me a capa da falsa dureza que me cobria e falou-me do que não deixei morrer. Quando ele se calou e eu olhei para dentro, vi o mesmo rosto intacto, agora descoberto, da tua juventude.
Viveste em mim, todos os dias em que o neguei. E esta recente noção dói tanto como o teu cheiro a surgir no meio da cidade, sem o teu corpo por perto.
Estou a rever, às claras, as imagens do nosso breve romance. Foi o homem que as trouxe para os meus olhos, quando eu já as pensava abandonadas. Não cessam um segundo, como se depois de tanto tempo a ignorá-las, me quisessem dizer que não se consegue nunca matar o que temos plantado no mais profundo de nós.
Não adianta tentares fugir para longe do que sempre esteve dentro de ti.
E, agora, ao pronunciar novamente o teu nome em voz alta, ao deixar-me desabar na sinceridade do escuro que a tua ausência me traz... morro mais um pouco, porque só assim sinto para viver de verdade.
As lágrimas são só um caminho inevitável nesta saudade em que me encontro, de novo, a remexer e que me levam a perceber que o orgulho é nada para o meu desejo de te reencontrar.
Naquela tarde de Verão, ao chegares, escancaraste as portas do meu desejo, abriste janelas e telhados...
Há quanto tempo vivo eu no meio de correntes de ar e sopros de coração?
Entre o céu da tua boca e a luz do céu de Lisboa,
Entre uma palavra tua e um poema de Pessoa,
Entre a cor do teu sorriso e todo o brilho do mundo...
Escolheria o que é teu,
Não hesitava um segundo.
Entre uma palavra tua e um poema de Pessoa,
Entre a cor do teu sorriso e todo o brilho do mundo...
Escolheria o que é teu,
Não hesitava um segundo.
por
Rita
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15 Julho 2008
01 Julho 2008
« como a queda dum sorriso p'lo canto triste da boca, neste vazio impreciso só a loucura me toca. »
há uma força vertiginosa e incolor que me empurra para os poetas. se eu a tento ignorar, ela faz-me tropeçar em poemas até os olhar de frente.
pergunto-me se todos os que se deixam cair nas letras, acabam por tombar também sobre a solidão, como se fosse ela poética e feliz. a única resposta que encontro vem de longe, com o vento que traz o cheiro de outras margens. segreda-me ele ao ouvido: vem, menina, está na hora... e eu sinto um arrepio na pele, e obrigo-me a ficar mais um tempo, porque sei que a virtude reside também em saber esperar pela hora certa, quando o desejo já quase tomou conta de tudo.
é esta espera a companhia que agora me resta, e que sinto como se me rasgasse por dentro.
e no fundo dos meus sonhos estão letras, milhares de novelos de letras, e os teus olhos. (são os mesmos de outros tempos; fitam o mundo todo, só não olham nesta direcção.)
nunca a solidão foi tão vazia.
o meu cabelo encaracola mais a cada dia que passa, e as sardas que trago no nariz multiplicam-se e saltam-me para perto dos olhos - consequências habituais dos dias de sol. por dentro, sinto-me a envelhecer. um pesado cansaço, em discrepância com a aparência jovial.
tenho medo dos rostos familiares, como se pudessem plantar em mim saudades de outras viagens. mas, se reparar bem, a maior parte já mal reconheço, de tão desfigurados que estão.
mas é desnecessário pedir compreensão a quem pressente a profunda dor da ausência.
no meio de tudo isto, acordo e a confusão das minhas palavras é a mesma dos meus pensamentos. os teus olhos estão colados ao muro do meu passado.
há vozes de poetas a ecoarem no salão vazio do meu desamor por ti, e há uma força vertiginosa e baça que me empurra para o alcance da tua vista. queria eu saber-me incapaz de ceder a um caminho que contenha os teus passos...
pelos vossos poemas, por favor, não deixem que ele me olhe de frente.
pergunto-me se todos os que se deixam cair nas letras, acabam por tombar também sobre a solidão, como se fosse ela poética e feliz. a única resposta que encontro vem de longe, com o vento que traz o cheiro de outras margens. segreda-me ele ao ouvido: vem, menina, está na hora... e eu sinto um arrepio na pele, e obrigo-me a ficar mais um tempo, porque sei que a virtude reside também em saber esperar pela hora certa, quando o desejo já quase tomou conta de tudo.
é esta espera a companhia que agora me resta, e que sinto como se me rasgasse por dentro.
e no fundo dos meus sonhos estão letras, milhares de novelos de letras, e os teus olhos. (são os mesmos de outros tempos; fitam o mundo todo, só não olham nesta direcção.)
nunca a solidão foi tão vazia.
o meu cabelo encaracola mais a cada dia que passa, e as sardas que trago no nariz multiplicam-se e saltam-me para perto dos olhos - consequências habituais dos dias de sol. por dentro, sinto-me a envelhecer. um pesado cansaço, em discrepância com a aparência jovial.
tenho medo dos rostos familiares, como se pudessem plantar em mim saudades de outras viagens. mas, se reparar bem, a maior parte já mal reconheço, de tão desfigurados que estão.
passa-me a minha mochila, eu tenho de ir. passa-ma, este sítio já não tem mais nada para mim. não chores, por favor. eu vou à procura de algo que me encha o peito, para poder encher as folhas em branco que levo. tenta compreender...
mas é desnecessário pedir compreensão a quem pressente a profunda dor da ausência.
no meio de tudo isto, acordo e a confusão das minhas palavras é a mesma dos meus pensamentos. os teus olhos estão colados ao muro do meu passado.
há vozes de poetas a ecoarem no salão vazio do meu desamor por ti, e há uma força vertiginosa e baça que me empurra para o alcance da tua vista. queria eu saber-me incapaz de ceder a um caminho que contenha os teus passos...
pelos vossos poemas, por favor, não deixem que ele me olhe de frente.
os teus olhos continuam incrivelmente belos e eu,
sem saber, continuo permanentemente a cegar.
sem saber, continuo permanentemente a cegar.
por
Rita
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31 Maio 2008
Meu querido.
Costumava encontrá-lo na terceira rua, à porta do bar do costume, quando a Lua já ia alta. Ajudava-o a endireitar a gravata e a apanhar um táxi para casa. Ele dizia-me, com a língua já meia enrolada: "Minha querida, tu já sabes que eu sou homossexual.", e sorria.
Beijava-me, mesmo assim, e eu ficava a vê-lo desaparecer rua abaixo, a desejar que existisse alguma alma, em alguma parte do mundo, capaz de o consolar.
Beijava-me, mesmo assim, e eu ficava a vê-lo desaparecer rua abaixo, a desejar que existisse alguma alma, em alguma parte do mundo, capaz de o consolar.
Às sextas-feiras, era costume encontrá-lo no Bairro. Só quando ele preferia ter a certeza de que eu não ia ficar por casa, quando não queria deixar o nosso encontro nas mãos desse acaso que nos fazia sempre cruzar um com o outro, me mandava uma mensagem: "Estou à tua espera na Praça Luís de Camões daqui a uma hora."
Sozinha, eu acabava sempre por aparecer. E ele, já com um copo na mão a acompanhar-lhe a espera, abraçava-me como se abraça uma irmã.
Dava-me a mão para atravessarmos juntos o tumulto de pessoas que ocupavam aquelas ruas, oferecia-me da bebida dele (o copo ficava sempre com a marca vermelha dos meus lábios, e ele nunca se importava) e puxava-me sempre para dançar, quando já mal conseguíamos controlar os passos.
Ele falava tanto. Era uma alma solitária, repleta de misticismo, com uma vontade gigante de exacerbar toda a complexidade do mundo. A mim, só me competia a tarefa de o ouvir e deixar descansar.
Acabávamos sempre a noite sentados na pedra da entrada dum prédio qualquer, encostados à porta de madeira. Ríamos, porque, juntos, o mundo em volta não existia. As pessoas que passavam, as vozes que se ouviam, não eram mais do que a doce ilusão dum plano muito longínquo.
Ele pedia-me sempre lume e, ao fim da noite, já me pedia também que lhe enrolasse os cigarros, enquanto me afastava o cabelo da frente dos olhos. Tinha as palmas das mãos mais bonitas que eu já conheci e duas bolas de cristal no lugar de olhos.
Pedia-me que não o deixasse, e tinha uma estranha forma de me convencer sempre a não o deixar seguir sozinho para casa.
Depois de algumas tentativas de conseguir meter a chave na fechadura, lá entrávamos. Eu descalçava-nos e embalava-o, como se faz com as crianças. Adormecíamos na cama de mãos dadas e, no dia seguinte, quando eu acordava, dava com ele já desperto a olhar para mim com um sorriso nos lábios. "Minha querida..."
Sozinha, eu acabava sempre por aparecer. E ele, já com um copo na mão a acompanhar-lhe a espera, abraçava-me como se abraça uma irmã.
Dava-me a mão para atravessarmos juntos o tumulto de pessoas que ocupavam aquelas ruas, oferecia-me da bebida dele (o copo ficava sempre com a marca vermelha dos meus lábios, e ele nunca se importava) e puxava-me sempre para dançar, quando já mal conseguíamos controlar os passos.
Ele falava tanto. Era uma alma solitária, repleta de misticismo, com uma vontade gigante de exacerbar toda a complexidade do mundo. A mim, só me competia a tarefa de o ouvir e deixar descansar.
Acabávamos sempre a noite sentados na pedra da entrada dum prédio qualquer, encostados à porta de madeira. Ríamos, porque, juntos, o mundo em volta não existia. As pessoas que passavam, as vozes que se ouviam, não eram mais do que a doce ilusão dum plano muito longínquo.
Ele pedia-me sempre lume e, ao fim da noite, já me pedia também que lhe enrolasse os cigarros, enquanto me afastava o cabelo da frente dos olhos. Tinha as palmas das mãos mais bonitas que eu já conheci e duas bolas de cristal no lugar de olhos.
Pedia-me que não o deixasse, e tinha uma estranha forma de me convencer sempre a não o deixar seguir sozinho para casa.
Depois de algumas tentativas de conseguir meter a chave na fechadura, lá entrávamos. Eu descalçava-nos e embalava-o, como se faz com as crianças. Adormecíamos na cama de mãos dadas e, no dia seguinte, quando eu acordava, dava com ele já desperto a olhar para mim com um sorriso nos lábios. "Minha querida..."
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Rita
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